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Uma volta de bicicleta pelo mundo do cinema
18/2/2009 17:13:00
Comparada a outros meios de transporte, a bicicleta ainda é um personagem pouco freqüente na literatura e no cinema. A magrela começa a girar nas telas depois da Segunda Guerra Mundial, passa por um período de esquecimento de cerca de 30 anos para ressurgir com força no final dos anos 70. Estamos nos referindo, é claro, às principais produções, sem considerar trabalhos desenvolvidos especificamente para TV. A lista de filmes soma hoje mais de 25 títulos, muitos deles documentários destinados a promover a adoção da bici como veículo de mobilidade urbana sustentável.
Ladrões de bicicleta (1948), do italiano Vittorio de Sica (1902-1974), puxa o pelotão de sucessos da bicicleta no cinema, tendo conquistado o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1950. O enredo narra a história de um homem que passa um dia inteiro procurando em vão, pelas ruas de Roma, a bicicleta que alguém lhe roubou. Em 1949, Jacques Tati (1907-1982), com a comédia Carrossel da esperança, mostra as peripécias de François, carteiro de uma pequena cidade envolvido na montagem de um parque de diversões, que inclui um cinema ambulante. Ali, assiste a um documentário sobre o sistema postal americano. Determinado a acelerar as entregas, François moderniza seu trabalho com a ajuda de uma bike, mas acaba provocando muita confusão entre os pacatos habitantes locais. O filme não tem diálogos, apenas música e efeitos sonoros.
Do trabalho para o esporte
Tanto de Sica quanto Tati focalizaram o trabalhador que tinha na bicicleta o instrumento da atividade produtiva ou o meio de transporte com o qual se deslocava diariamente, o que se tornou bastante comum nos anos pós-guerra. Tal comportamento entrou em declínio a partir da década de 1950 com a popularização do automóvel nos Estados Unidos e na Europa. É expressiva, aliás, a cena de um clássico dos road movies, Aquele que sabe viver (1962), de Dino Risi, em que os personagens em viagem de carro pela Itália debocham de um ciclista esportivo que encontram na rodovia.
Trinta anos depois de Carrossel da Esperança, em 1979, a bicicleta reaparece no cinema, desta vez tendo como tema as competições de ciclismo de estrada. Trata-se de Correndo pela vitória, de Peter Yates. A disputa esportiva permanece em foco em Competição de destinos, de John Badham (1985), com Kevin Costner e com uma ponta do grande campeão belga Eddy Merckx. Thomas Michael Donnely resgata o trabalhador-ciclista em O prazer de ganhar (1986), com Kevin Bacon.
Os mais recentes
A partir do ano 2000, pelo menos cinco títulos merecem destaque. O primeiro é a comédia Le Vélo de Ghislain Lambert, dirigido por Philippe Harel: nos anos 70 havia Merckx e havia outros. O fictício Lambert, um modesto ciclista belga, era um dos outros, mas tinha uma grande ambição na vida — se tornar um campeão. Infelizmente não tinha as pernas que seu coração exigia. Em 2001, Wang Xiaoshuai retoma o argumento de Ladrões de bicicleta com Bicicletas de Pequim. Em 2003, Sylvain Chomet lança a aclamada animação As bicicletas de Belleville. Na história, um jovem a quem conhecemos como Campeão encontra a felicidade somente quando está sobre a bicicleta. Ele cresce e consegue ingressar na mais famosa corrida de ciclismo do mundo, a Volta da França, mas é raptado por dois misteriosos mafiosos. A avó, Madame Souza, e o fiel cão Bruno cruzam o oceano para resgatá-lo na megalópole Belleville.
A contribuição brasileira aparece em 2004, com O caminho das nuvens, de Vicente Amorim. O filme é baseado na história real de Cícero Ferreira Dias, um caminhoneiro desempregado que, junto com a mulher e cinco filhos, pedalou 3,2 mil quilômetros desde Santa Rita, na Paraíba, até Bangu, no Rio de Janeiro. Em 2006, Douglas Mackinnon, com O escocês voador, narra a incansável luta de Graeme Obree (1965) para conquistar o título de campeão mundial de ciclismo e sua batalha contra o distúrbio bipolar. Em 1993, Obree projetou e construiu uma bicicleta com sobras de metal e peças retiradas até mesmo de uma máquina de lavar roupa. Competindo entre os melhores, o escocês quebrou o recorde de velocidade em julho daquele ano e repetiu a dose em abril de 1995. Veja aqui uma foto da bicicleta de Obree. César Charlone e Enrique Fernández assinam a direção do excelente O banheiro do Papa (2007), que mostra o cotidiano de contrabandistas que utilizam a bicicleta para transportar muamba na cidade uruguaia de Melo. Veja o site do filme aqui.
Na sexta-feira, 21, retomo o tema para falar nos filmes em que a bicicleta tem papel de coadjuvante mas nem por isso menos importante.
Jornal/ Revista/ Site: Pedivela (http://www.clicrbs.com.br/blog)
Coluna/Caderno: Principal
Data: Terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
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